A Dama de Pedra
Capítulo 1
No começo os dias
demoravam séculos pra passar, hoje, vejo centenas de anos passando como dias.
A princípio acho
que isso se devia ao fato de ter que ficar olhando para os ombros dele o dia
todo, e em ficar imaginando a possível expressão de satisfação em seu rosto,
mas assim como não há magia eterna, não existe sentimento que dure para sempre
também, nem mesmo o ódio.
O fato desse meu
rancor estar desaparecendo aos poucos, se deve em suma a minha curiosidade que
cada vez se tornou maior em relação á aquela criança que me visita todos os
dias.
Aos poucos percebi
que passava mais tempo imaginando o porquê que ela gostava tanto de ficar
me admirando ou invés de ficar pensando em como pretendia dizimar meu
sentinela.
O longo tempo que
passei sob o feitiço me ajudou em uma coisa pelo menos, tive muito tempo pra
pensar, e pensei muito mesmo, e isso me tornou uma pessoa mais sábia, acredito.
Não digo que me tornei uma filosofa, pois não pude observar o mundo,
apenas vi o tempo passar em uma parte dele, e essa parte ficava entre as duas
silhuetas á minha frente.
A maioria do
tempo, só buscava por vingança, mas aos poucos, outros pensamentos começaram a
ocupar a minha mente, até que aquela menininha apareceu e se tornou o centro de
tudo.
Queria muito saber
a que mundo ela pertencia, o que havia mudado enquanto estava
aqui petrificada e acima de tudo queria entender como
ela conseguiu chegar até mim, porque, durante muito tempo nenhum
humano havia de aproximado.
Como estaria o
mundo ao meu redor?
Todas as pessoas
que conheci morreram á tempos, agora só me restam o mestre, “ele” e a menininha
como faces familiares.
Pergunto-me o que
deve estar se passando na cabeça do mestre e dele, se eles estão concentrados
em me derrotar e pegar o livro de volta quando meu feitiço terminar, se
terminar, pois se tem uma forma de quebrá-lo e voltar ao normal, eu não sei,
talvez nem eles saibam, mas, pelo medo desse dia eles decidiram aceitar a mesma
sina que a minha.
Por todo esse
tempo me perguntei o porquê de tudo isso, mas logo cheguei a conclusão de que a
culpa foi da minha ingenuidade, se Ele queria tanto o livro com os feitiços
bastava tê-lo roubado, mas talvez soubesse que não era hábil o bastante, por
isso me convenceu a fazê-lo por ele e depois virou o jogo todo a seu favor. E
hoje lá está Ele, todo respeitável e como braço direito do mestre, esperando a
vilã despertar para conseguir pegar o livro de volta, não para dá-lo ao seu
verdadeiro dono, o mestre, mais para tê-lo para si e enfim se tornar o
soberano.
Todos os dias me
forço a lembrar do passado, pois tenho medo de que com o passar do tempo, fosse
esquecendo o porquê de estar aqui.
Na minha
juventude, a magia era uma prática elitizada, onde poucos sabiam e menos ainda
ensinavam, então, ter um mestre para me passar seu conhecimento, me tornava uma
pessoa de muita sorte, porém, tanto eu quanto Ele, achávamos que a magia deveria
ser ensinada as pessoas comuns como forma de melhorar o seu dia a dia, pois éramos
chamados para resolver problemas tão simples e que facilmente poderiam ser
resolvidos pela pessoa se a ela fosse passado alguns ensinamentos básicos da
magia, mas o Mestre não via as coisas assim, pois nossos serviços eram muito
bem pagos e ao mesmo tempo, ele dizia que tinha medo desse poder cair nas mãos
de ignorantes.
Devido a essa
utopia que vivia em minha mente, que Ele me convenceu a roubar o livro do
mestre, mas Ele não pensava como eu, Ele só queria uma coisa, poder.
Depois que havia
pegado o livro, Ele me entregou ao mestre, tentei explicar, mais o livro em
minhas mãos já dizia tudo. O ódio tomou meu coração quando vi sua face
vitoriosa ao me ver lutando contra o mestre. Tudo se encaixou em um piscar de
olhos, pois sempre fui melhor que Ele, mas não porque me sentia superior, na
verdade vê-lo se esforçando para me alcançar me fazia querer aprender ainda
mais para tê-lo perto de mim, pois se seus poderes se igualasse aos meus,
sentia que minha companhia não lhe fosse mais útil.
Como meus poderes
eram grandes demais para serem destruídos, o mestre me lançou esse feitiço como
ultimo recurso, e aqui estou eu.
Talvez eu nunca
volte ao normal e fique aqui até não restar mais nada, mas eles estarão aqui
comigo também, me vigiando no meu sono e torcendo para que eu nunca desperte.
Capítulo 2
Ela chegou
novamente para me visitar, mais não está com um sorriso no rosto ou uma carinha
de curiosidade, aconteceu algo com ela, o que pode ter se passado com essa
criança? Se deitou aos meus pés e começou a chorar.
Desde que ela
começou a vir aqui, sabia que ela não era uma criança como as outras, ela
sempre me observava com um brilho nos olhos, como se esperasse eu me mexer e ir
abraçá-la, e após algum tempo, essa começou a ser a minha vontade, ir até
lá e perguntar o que estava havendo.
Mas hoje em
especial, mais do que nunca, eu queria que o feitiço acabasse, pois não sabia o
que estava havendo, então ela olhou para mim e disse soluçando:
_ Achava que você
fosse acordar, porque você se foi para sempre mamãe ?
Havia entendido,
enfim havia descoberto o porquê dela vir até aqui, era por causa de sua mãe, e
ela havia morrido hoje. Talvez fosse uma forma dela fugir da difícil realidade
vindo até mim achando que fosse sua mãe, me fazendo companhia.
Uma
agonia espremeu meu coração, uma aperto muito forte, queria muito ir
até aquela criança, não ligava pro livro em minhas mãos nem pros meus
guardiões, queria apenas reconfortá-la, então algo aconteceu, algo quente
escorreu pela minha face, uma lágrima.
"Então seu
coração deixou de ser de pedra e ela voltou a ser carne"